
✨ O ocultista francês Éliphas Lévi (1810-1875), cujo nome de batismo era Alphonse-Louis Constant, foi um dos grandes responsáveis pelo ressurgimento do tarô no século 19, muito graças ao altíssimo patamar a que alçou o tarô em seu famoso livro “Dogma e Ritual de Alta Magia” (1856) – como é possível ver pelos trechos selecionados abaixo.
📕Esse não é um livro de tarô – mas foi feito tendo a estrutura do tarô como base e o último capítulo é sobre o tarô. Nesse livro, Lévi expandiu a teoria existente de que os 22 arcanos maiores estavam associados às 22 letras do alfabeto hebraico, associando-os à Cabala, pela primeira vez.
🤝 Pouco depois, o encontro de Lévi com o ocultista inglês Kenneth Mackenzie (1833-1886), em 1861, foi o embrião do que viria a ser a criação, em 1888, da Ordem Hermética do Amanhecer Dourado (OHAD), cujos membros influenciaram profundamente o tarô. O místico Arthur Edward Waite (1857-1942) e a ilustradora Pamela Colman Smith (1878-1951), criadores do tarô de Rider-Waite-Smith, fizeram parte da Ordem.
📕 Arthur Waite traduziu o livro de Lévi para o inglês, em 1896, e escreveu um interessante prefácio sobre a vida dele. Nele, nota-se a grande influência de Lévi sobre Waite (mas também uma certa acidez):
✅ “Ele costumava circular com vestes de mago medieval, o que pode ser perdoado pelo fato de ter sido um ocultista francês.”
✅ “Nenhum divulgador moderno das ciências ocultas pode ser comparado a Éliphas Lévi. Já entre os antigos, apesar de muitos estarem em maior patamar, nenhum nos é tão interessante de ser estudado, pois ele representa o próprio espírito dos tempos modernos tentando reinterpretar, por vezes forçadamente, os oráculos da antiguidade. É óbvio que há nomes mais grandiosos, mas ninguém excede o fascínio que o mago francês trouxe para a literatura ocultista.”
✅ “Não me parece irracional afirmar que se Lévi tivesse sido deixado a sós, jamais teria avançado tanto nas ciências ocultas, pois sua vivacidade teria sido rapidamente apagada pelos horrores da pesquisa em si. Mas, de alguma forma, ele eventualmente encontrou algum círculo iniciático que encurtou enormemente suas necessidades de pesquisa, e o colocou no caminho certo. Aí está, portanto, a importância de Dogma e Ritual da Alta Magia. Ele carrega a voz da iniciação, embora disfarçada. De qual escola, não faz diferença, até mesmo porque nada pode ser dito a céu aberto nesse ramo. E, nesse caso, eu só posso pedir a meus leitores que confiem em mim em tal julgamento.”
📕 Seguem os trechos de Eliphas Lévi, sobre o tarô:
“É uma verdadeira máquina filosófica que impede o espírito de desviar-se, deixando-lhe, ao mesmo tempo, a sua iniciativa e sua liberdade; são as matemáticas aplicadas ao Absoluto, é a aliança do positivo ao ideal, é uma loteria de pensamentos rigorosamente justos como os números; é, enfim, talvez o melhor que o gênio humano já concebeu, sendo ao mesmo tempo o mais simples e o mais grandioso.”
“[O tarô] é o verdadeiro segredo da transmutação das trevas em luz, é o primeiro e o mais importante de todos os arcanos da Grande Obra.”
“O tarô é um verdadeiro oráculo, e responde a todas as questões possíveis, com mais clareza e infalibilidade do que o androide de Alberto, o Grande: de modo que um prisioneiro sem livros poderia, em alguns anos, se tivesse somente um tarô do qual soubesse servir-se, ter adquirido uma ciência universal, e falaria de tudo com uma doutrina sem igual e uma eloquência inesgotável.”
“O tarô, este livro milagroso, inspirador de todos os livros sagrados dos antigos povos, é, por causa da exatidão analógica das suas figuras e dos seus números, o instrumento mais perfeito de adivinhação que possa ser empregado com inteira confiança. Com efeito, os oráculos desse livro são sempre rigorosamente verdadeiros, ao menos num sentido, e, quando nada prediz, sempre revela coisas ocultas e dá aos consultantes os mais sábios conselhos.”
“De todos os oráculos, o tarô é o mais surpreendente nas suas respostas, porque todas as combinações possíveis desta chave universal da Cabala dão como soluções oráculos de ciência e verdade. O tarô era o livro único dos antigos magos; é a Bíblia primitiva, como o provaremos no capítulo seguinte, e os antigos o consultavam como os primeiros cristãos consultaram, mais tarde, a sorte dos Santos, isto é, versículos da Bíblia tirados ao acaso e determinados pelo pensamento de um número.”
“Daremos, no fim do Ritual, outros detalhes e documentos completos sobre o maravilhoso livro do tarô, e demonstraremos que é o livro primitivo, a chave de todas as profecias e de todos os dogmas; numa palavra, o livro inspirador dos livros inspirados, o que não pressentiram nem Court de Gébelin, na sua ciência, nem Alliette ou Etteilla, nas suas singulares intuições.”
“A adivinhação é, pois, uma intuição, e a chave desta intuição é o dogma universal e mágico das analogias. É pelas analogias que o mago interpreta os sonhos, como vemos na Bíblia, que o patriarca José o fazia outrora no Egito: porque as analogias nos reflexos da luz astral são rigorosas como os matizes das cores na luz solar, e podem ser calculadas e explicadas com grande exatidão.”
“Conhecer os pensamentos mais secretos dos homens, penetrar nos mistérios do passado e do futuro, evocar, de século em século, a revelação rigorosa dos efeitos pela ciência exata das causas, eis o que se chama universalmente a adivinhação. De todos os mistérios da natureza, o mais profundo é o do coração do homem; e, entretanto, a natureza não permite que a sua profundeza seja inacessível. Apesar da dissimulação mais profunda, apesar da política mais hábil, ela própria traça e deixa observar nas formas do corpo, na luz dos olhares, nos movimentos, no andar, na voz, mil indícios reveladores.”
“Quanto aos instrumentos adivinhatórios, esses são simplesmente meios de comunicação entre o adivinho e o consultante, e, muitas vezes, só servem para fixar as duas vontades sobre o mesmo signo; as figuras vagas, complicadas, móveis, ajudam a reunir os reflexos do fluido astral, e é assim que vemos nas borras de café, nas nuvens, na clara do ovo etc., formas fatídicas, e que só existem no translúcido, isto é, na imaginação dos operadores.”
“A geomancia e a cartomancia são outros meios para chegar aos mesmos fins: as combinações dos símbolos e números, sendo ao mesmo tempo fortuitas e necessárias, dão uma imagem muito exata das sortes e dos destinos para que a imaginação possa ver a realidade em vez dos símbolos.”
“O homem é o próprio criador do seu céu e do seu inferno, e não há outros demônios senão as nossas loucuras.”
“Dar prova da ciência aos que duvidam da própria ciência é iniciar indignos.”
➡️ Caso você queira ler o livro, recomendo a edição de “Textos para Reflexão”, traduzida por Rosabis Camaysar e Rafael Arrais.

➡️ Para saber em detalhes a fascinante história do tarô, recomendo “Tarô – Simbologia e ocultismo”, o volume 1 da trilogia do Nei Naiff:

