Tarot cigano

Descobri, um pouco por acaso, que uma amiga, Bruna Ramos da Fonte, estuda o tarô cigano. Como não tenho nenhum material sobre esse tarô no meu blog, tive a ideia de convidá-la para escrever um post sobre o assunto aqui. Como ela é escritora, o resultado final foi mais que especial. Copio, a seguir, o texto por ela enviado. E em breve postarei aqui a continuação desse texto, em que Bruna ensinará como usar o tarô cigano.

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Tarot cigano: um amigo para todas as horas 

Somos todos filhos de uma mescla de raças que compõe a nossa individualidade e fazem de nós seres únicos. Ter consciência sobre a nossa ancestralidade é reconhecer e acolher a presença das diferentes raízes que sustentam a árvore da nossa própria vida e, com isso, ter a chance de enriquecer e embelezar os nossos dias da maneira mais plural possível. O que você vê quando olha para trás, quando lança um olhar para a sua própria ancestralidade? Quando olho para as três gerações que antecedem a minha, enxergo portugueses, escravos, indígenas e ciganos convivendo lado a lado na constelação da minha própria existência. E no meu dia a dia enxergo a presença de cada um deles nos meus traços, nos meus hábitos, nas minhas roupas, na minha casa e em tudo aquilo que me cerca. E é claro que não poderia ser diferente quando o assunto é autoconhecimento e espiritualidade: mediunidade, novenas, oferendas, patuás, benzeção, anjos, vidência, cristais, santos, cartomancia e incensos sempre fizeram parte do universo onde cresci, coabitando os mesmos espaços de forma harmônica e complementar. 

Essa diversidade sempre fez com que assuntos que, para muitos são verdadeiros tabus ou grandes mistérios, tenham sido apresentados para mim de uma forma muito leve e natural. Foram tantas as influências que guiaram o meu processo de autoconhecimento e formaram, assim, o meu conceito de espiritualidade que, por mais que eu tenha me dedicado a estudar e a conhecer diversas religiões e filosofias, nunca consegui praticar apenas uma; esse universo tão rico de influências construiu um repertório extremamente variado que religião alguma teria condições de abranger simultaneamente. Esse conjunto de influências fez de mim uma pessoa inquieta e aberta aos mais diversos conhecimentos e explicações, então você vai sempre me surpreender transitando pela vida em busca de aprender cada vez mais – seja no taoísmo, na psicanálise, no xamanismo ou no campo da teologia bíblica –, pois estou sempre disposta a trilhar novos caminhos. Da minha ancestralidade, herdei essa alma cigana que faz de mim uma mulher nômade, que passa a vida transitando entre lugares e saberes. 

Ainda que a cartomancia tenha cruzado o meu caminho diversas vezes ao longo da vida, particularmente nunca foi algo que atraiu a minha atenção; não porque houvesse ceticismo da minha parte, mas simplesmente porque nunca havia sentido algum tipo de identificação ou curiosidade sobre o tema. Minha mãe sempre se interessou pelo assunto e, me lembro que na minha adolescência, ela traduziu um livro bastante famoso na época sobre a utilização do tarot no campo do amor; apesar de achar o livro lindo, guardei o exemplar que ela me deu de presente sem ter lido. Ainda que na família houvesse um certo hábito de consultar tarólogos, tive apenas duas experiências de leitura com o Tarot de Marselha: a primeira quando, movida pela curiosidade, me consultei com um vidente um tanto quanto suspeito na praia de Boa Viagem e a segunda em uma das minhas viagens a Havana, quando um vidente – ao perceber que eu era brasileira – ofereceu uma leitura gratuita em troca de informações sobre o final da novela Avenida Brasil que, naquele momento, estava fazendo um enorme sucesso na televisão cubana. Como eu não tinha assistido à novela, não sabia o desfecho da história, mas acabei aceitando pagar a ele um dólar em troca de uma leitura que trouxe reflexões interessantíssimas que até hoje me acompanham. Algum tempo depois, durante a minha formação em Clínica Psicanalítica, estudei sobre a utilização do tarot no contexto da clínica Junguiana, já que para Jung as cartas seriam manifestações arquetípicas dos conteúdos do inconsciente. Mas, naquele momento, outros tantos assuntos me chamaram a atenção e eu acabei não me aprofundando no tarot, até o dia em que essa realidade mudou de uma forma bastante curiosa e simbólica. 

Eu estava passando por um momento da vida onde buscava respostas que não estava sendo capaz de encontrar ; isso me tirava o sono e as noites de insônia se tornaram uma rotina. Numa dessas noites, ao conseguir finalmente dormir, tive um sonho no qual estava sozinha com o tarot e ali nas cartas encontrava caminhos e respostas. Como cultivo o hábito de interpretar meus sonhos e símbolos que neles se manifestam – em uma interpretação fundamentalmente Junguiana também –, ao acordar compreendi que o fato de não haver outra pessoa comigo neste sonho, simbolicamente mostrava que somente eu poderia encontrar essas respostas dentro de mim mesma e que, nesse caminho, o tarot seria uma ferramenta fundamental ao resgatar e representar os conteúdos do meu inconsciente. Ocorre que, ao longo daquele dia, eu me esqueci completamente desse sonho e só lembraria dele semanas depois quando, ao entrar em uma loja esotérica para comprar incensos, me deparei com diversas prateleiras cheias de baralhos de todos os tipos. De olhos fechados, estiquei meu braço direito e intuitivamente escolhi um baralho em meio a todas aquelas opções: era um Lenormand – um baralho cigano de 36 lâminas – e eu soube imediatamente que naquele instante se iniciava uma jornada bastante importante na minha vida. 

Quando cheguei em casa, abri a caixa sem saber exatamente o que encontraria ali porque nunca havia tido contato algum com o baralho cigano. De maneira bastante intuitiva, me familiarizei com as lâminas e foi nesse processo que o meu conhecimento sobre a abordagem Junguiana fez com que eu compreendesse rapidamente a dinâmica que rege a sua interpretação, pois são cartas que de imediato nos remetem a símbolos e arquétipos que nos são familiares, nos convidando a desenvolver um olhar mais intuitivo em busca de significados e conexões que, ao mesmo tempo em que são bastante particulares, são também universais – o que facilita a compreensão e a identificação das questões ali guardadas. Daquele dia em diante, passei a me dedicar aos estudos sobre o baralho cigano, ao mesmo tempo em que praticava a minha leitura constantemente; estudar somente a teoria não basta, pois você precisa também apurar a sua intuição para ser capaz de realizar interpretações cada vez mais precisas, ricas e profundas. 

Algo que eu sabia desde o início, era que não queria limitar a minha relação com o tarot a consultas esporádicas onde eu recorresse a ele em momentos ou assuntos pontuais. Passei então a ter uma rotina diária com este que se tornou um grande amigo e companheiro inseparável de vida. Uma rotina que foi construída de uma forma muito rica e interessante, que me permitiu explorar as possiblidades do tarot de uma maneira muito ampla. Nesse processo, aprendi que, ao mergulhar no universo da cartomancia, você não pode se deixar paralisar pela mensagem trazida pelas cartas – mesmo que, aparentemente, estas não sejam positivas –, pelo contrário: elas nos dão o subsídio necessário para que possamos lidar com as questões que se apresentam de maneira mais equilibrada, para que possamos ter mais sucesso ao lidar com os desafios da nossa vida diária e, assim, fazermos escolhas cada vez mais conscientes. 

Perguntar para o tarot é perguntar para si mesmo, é ter a chance de encontrar respostas que sempre estiveram guardadas dentro de você. Após alguns anos mantendo essa relação diária com as cartas, sei que trazer o tarot cigano para a minha vida foi conquistar um passaporte rumo ao meu inconsciente, à minha intuição e à minha mais pura e verdadeira essência. Com ele, tive a oportunidade de aflorar toda a minha sensibilidade, conhecer os cantos desconhecidos da minha alma e, finalmente, encontrar e ocupar o meu próprio lugar dentro da alma coletiva do mundo. Assim, fiz do meu encontro com o tarot um ritual diário, um momento de introspecção e meditação, onde me fecho em mim em busca de ouvir aquela voz que vem de dentro; aquela voz que acaba sendo abafada pelas vozes do mundo externo, fazendo com que nos percamos de nós mesmos em algum lugar do caminho. Ao longo do tempo, criei algumas rotinas de leitura: realizo leituras anuais, mensais e diárias, cada uma com uma finalidade distinta. Mas isso já é assunto para uma próxima conversa nossa.

Bruna Ramos da Fonte é biógrafa, escritora, escritoterapeuta e palestrante. Especialista em Leitura e Produção Textual com Aperfeiçoamento em Psicanálise Clínica, é criadora da sua própria metodologia no campo da Escrita Terapêutica. É autora de diversos títulos, incluindo “Escrita Terapêutica: um caminho para a cura interior” (Letramento, 2021) e as biografias de Sidney Magal e Roberto Menescal. Visite: www.brfonte.com

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